HISTÓRIA DA ABNP

DISCURSO DE FUNDAÇÃO

Desde o primeiro pensamento do mais delicado sentimento, ou da primeira letra,  a palavra que aflora como tarefa essencial, seria agradecimento, nos agradecermos, pois de fato, foram muitos os caminhos que nos conduziram a esse dia e a esse momento tão simples, mas tão renovador de emoções, de novos encontros, e de resgate no novo presente, de uma certa coragem e inspiração para participar da vida associativa. Teria sido mais fácil para todos nós, os que viemos e os que não conseguiram estar conosco nesse momento, a comodidade de nossas rotinas, um certo não comprometer-se, uma discreta ausência, como muitos o fizeram, de assumir a tarefa de construir uma associação. 

Afinal, a jornada seria difícil, os que não acreditavam ou tinham medo, alegavam que não teríamos forças para enfrentar prováveis resistências ou retaliações. Referiam existir mais do que pedras, mas também, poder e ódio no meio do caminho. Houve até os que nos odiavam por conta do nosso projeto; tanto, que se referiam a nós como "bando de psicóticos, surtados, frustrados" teve até algum tipo de ameaça divulgada por terceiros, ou até mesmo tentativas para desistirmos.   
 
Apesar de todas as dificuldades, todos nós continuamos a nossa jornada. Alguns, mas muito poucos, talvez até, por uma certa sensibilidade destoante, desagregaram-se ao longo do caminho. Talvez ainda não tenham desistido, e quem sabe, não estarão conosco mais à frente e nos fortalecerão ainda mais. Com certeza são muitos os  que irão somar-se ao nosso grupo, assim que as portas forem abertas para novas inscrições, mas,  somente entrarão através das nossas mãos. Porque precisamos cuidar da ABNP com calma e com todo zelo, para trazermos para o nosso convívio, colegas que tenham uma aproximação com as ideias fundadoras de nossa  instituição. 

Hoje todos nós temos uma certeza consolidada, de que fizemos o que era certo e necessário; já que o campo institucional da psiquiatria  brasileira, exigia a construção de um novo espaço para também poder representá-la, sob a forma de um novo olhar, pluralidade e respeito pelo conhecimento, pois,  constituímos uma pedra fundadora de especial substância intelectual, científica, de um fértil sentimento e compromisso de humanidade. 

   Sabemos que a produção e divulgação de um conhecimento científico de qualidade, poderá ser feita de maneira motivadora, sem necessariamente ser arrogante ou de modo sisudo. Mas também, sabemos que não podemos fugir a fatalidade do poder como ordem de dominação, por isso, devemos estar atentos as suas vilanidades e espertezas. Para que, em nossa entidade, tudo o que seja de sua propriedade, torne-se irrisório ou subtraia-se ante a nossa maneira de conviver e atuar na ABNP. Sabemos mais ainda, de que princípios e valores bem orientados, podem sim, modificar o uso que fazemos das forças do conhecimento e da gestão institucional, de modo que, nesse cenário, o poder de dominação cede, desgasta-se, extenua-se e morre.

Cria-se então, a condição necessária para o surgimento de uma nova ordem de poder, que não impõe, mas que desperta em nós o melhor de nossas aptidões. Um poder que não divide e que propaga sua harmonia. Não obriga, mas fascina e conquista admiração. Um poder que se recusa a ensinar por meio de uma simples formalidade, mas antes, procura sutilmente, mas muito sutilmente, despertar com toda força, a vontade de conhecer com profundidade e encantamento. No campo científico e pessoal, significa entender que a essência da identidade do que somos e do que fazemos, não está na igualdade ou no padrão, mas sim, na diferença que conseguimos alcançar de nós mesmos e do conhecimento que propagamos. Na possibilidade concreta de sermos tantos quantos sejam necessários para sermos nós mesmos, nas nossas diferenças. Assim, como ocorre no campo do conhecimento, lugar de pura diferença, onde superamos a ciência do certo ideológico.

Nessa ordem de valores e de novas condições,  nossa ABNP é chamada a responder às solicitudes do presente contínuo, consagrando o seu mais alto nível de compromisso com a tradição. Essa é a forma mais segura de sustentação e efetiva colaboração com os novos modelos exigidos pelo terceiro milênio.

Por fim, votos de uma esperança incansável, para que todos nós possamos lidar com lealdade, no que se refere a tudo que nos uniu e nos fez estar juntos. Que a celebração desse dia de fundação, prospere com todo vigor nas nossas tarefas e nos muitos, mas muitos encontros que ainda teremos nesse presente contínuo.

Douglas Dogol Sucar

Presidente da ABNP

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